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O desafio de levar terapias personalizadas a todos os pacientes

Imagine dois pacientes com a mesma doença, a mesma prescrição, mas com metabolismos completamente distintos. Na medicina tradicional, os dois acabam recebendo o mesmo tratamento, porque produzir de outro jeito, em escala industrial, nunca foi viável. É esse o problema que as terapias personalizadas tentam resolver: em vez de ajustar o paciente ao tratamento que já existe, ajustam o tratamento ao perfil genético, molecular e clínico de cada pessoa. A impressão 3D de medicamentos entra nesse movimento, permitindo ajuste de dose, formato e via de administração sob medida para quem vai usar o medicamento.


Desenvolver a tecnologia é apenas um dos desafios; o outro vem em seguida: garantir o acesso da população a ela. O mesmo já aconteceu, e ainda acontece, com outras terapias avançadas: gênicas, celulares, CAR-T, CRISPR. Todas provaram que é possível colocar o organismo individual do paciente como protagonista do tratamento, mas também mostraram que inovação sem estrutura de acesso vira privilégio de poucos. 


Então, quais são os principais obstáculos que essas tecnologias personalizadas enfrentam para chegarem até o paciente: 


Investimento inicial alto. Terapias personalizadas exigem um alto investimento para serem desenvolvidas e implementadas inicialmente. Entretanto, os benefícios desse investimento dão retorno em curto prazo com tratamentos mais eficazes que beneficiam não somente o paciente, mas também o estabelecimento de saúde.


Falta de conhecimento e informação. Se farmacêuticos, prescritores e gestores de saúde não têm familiaridade com a tecnologia, fica difícil confiar nela, prescrevê-la ou defender investimento em sua adoção. Por isso, um dos pilares da formula3D é democratizar o acesso ao conhecimento sobre a tecnologia de impressão 3D de medicamentos. Tornar o conhecimento acessível, torna a tecnologia acessível também.


Regulações. Talvez o gargalo mais citado na literatura. É um longo caminho para um novo tratamento ser regulamentado. Não existe, até hoje, uma regulamentação específica e abrangente para medicamentos produzidos por impressão 3D. Mas os órgãos internacionais já têm iniciado discussões acerca do tema. No Brasil, a Anvisa já sinaliza abertura ao tema com sua política de inovação regulatória, mas ainda não há um marco específico para a tecnologia.


Desigualdades regionais. A tecnologia tende a se concentrar em grandes centros urbanos e instituições de pesquisa. Regiões remotas, hospitais menores e populações mais vulneráveis ficam de fora, o mesmo padrão de exclusão que já vemos em outras terapias de alta complexidade, em que o acesso depende de proximidade geográfica com centros especializados. Mas não visualizamos este cenário para a impressão 3D, pelo contrário, essa tecnologia pode levar o tratamento medicamentoso para populações mais vulneráveis e locais de difícil acesso. 


Essas são barreiras que podem ser superadas com acesso ao conhecimento. Muitas novas tecnologias param na bancada ou na falta de perspectiva de escalonamento, ou ainda nas barreiras regulatórias, como muitas terapias avançadas passaram no início. Mas há um caminho. A própria literatura científica aponta caminhos: modelos híbridos de fabricação, em que a indústria produz o intermediário e o ponto de atendimento imprime e libera o lote; fábricas modulares e ágeis; inteligência artificial para otimizar processos e reduzir custos; e o fortalecimento do diálogo entre agências reguladoras e empresas inovadoras. Do lado das políticas públicas, parcerias público-privadas, automação e investimento em capacitação técnica regional completam esse caminho.


 
 
 
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